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 ESPAÇO CULTURAL

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Beladona



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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 13:14

...Cont.
A 16 de Junho de 1916 Florbela escreve àquela que viria a ser a sua mais íntima confidente,embora nunca se tenham conhecido pessoalmente.Chama-se Júlia Alves e é subdirectora da revista Modas e Bordados,que vem publicando composições da jovem poetisa desde o início desse ano.
O primeiro sinal dessa cumplicidade espiritual data de 30 de Junho desse ano,e está consubstanciado na carta que Florbela envia a Júlia Alves.Nela transparece uma profundamente desiludida com o casamento:"(...)o casamento é brutal como a posse é sempre brutal,sempre!"E acrescenta:"Só para as mulheres,as tais mulheres mais animais que espirituais,é que o casamento não é a desilusão de sempre-mas então nós?".
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 13:38

...Cont.
Por tudo isto,fácil se torna concluir que o seu casamento estava a desmoronar-se,e com ele também a saúde de Florbela.Ela ama-mas o seu amor tem uma dimensão espiritual que ninguém,e menos ainda o seu marido,parece ser capaz de entender.Novamente Júlia Alves recolhe os seus desabafos:"O meu (coração)anda à solta,tão grande,tão ambicioso,tem sempre frio,está sempre só...Ninguém sabe andar com ele!"
O tempo vai passando.No meio das suas mágoas e da sua solidão Florbela continua a escrever.Decide-se então a vir para Lisboa,para estudar na Faculdade de Letras de;contudo,estanhamente irá matricular-se na Faculdade de Direito,cujos três primeiros anos frequentará,sem todavia fazer um único exame de qualquer cadeira,algo possível ao abrigo da reforma de 1911.
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 13:52

...Cont.
Deste modo, encontra-se em Lisboa com o seu marido quando em Março de 1918 tem um aborto espontâneo,e em Novembro de 1923 Florbela aborta novamente.
florbela tem 23anos e está muito doente.O aborto deixa-a debilitada,pelo que parte para Quelfes,nos arredores de Olhão,em busca de teatamento.Aí permanecerá até Setembro desse ano,altura em que ,incompatibilizada com o marido,decide regressar sozinha a Lisboa,matriculando-se no 2ºano de Direito.Assim termina o seu primeiro casamento."Estou cansada.Estou resignada.Já quase tudo me é indiferente.Eu espero,como já te disse,não discursos mas resoluções.Poupa-me a mais mágoas,que é uma obra de caridade.Adeus.Florbela."..
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 14:25

...Cont.
No meio de tantos infortunios e desgostos,Florbela tem,enfim,uma alegria em Junho de 1919:sob a égide de Raul Proença,que compila e edita os sonetos da jovem poetisa,é dado à estampa o Livro de Mágoas,primeiro volume da obra poética de Florbela Espanca.Nesse mesmo ano matricula-se pela última vêz na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa,onde aliás conhece Américo Durão um seu condiscípulo que a 27 de Dezembro publica no jornal O Século um soneto em que a apelida de Soror Saúdade.O mesmo vespertino publicará a resposta de Florbela-um soneto que intitula "O meu nome",que mais tarde por si será retitulado como "Soror Saúdade".
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 14:39

...Cont.
Todavia,nova reviravolta estava para acontecer na vida de Florbela:em Janeiro de 1920,numa festa de casamento, conhece António José Marques Guimarães,então um jovem alferes miliciano a prestar serviço na GNR.Tem 25 anos e será o segundo marido de Florbela.
Vivendo embora em conjunto,só a 29 de Junho de 1921 é que Florbela e António contraem casamento,já que somente em Abril desse ano é decretado o divórcio da nubente.A lua-de-mel é passada na casa do casal em Matosinhos,local para onde as obrigações profissionais de António Guimarães os obrigam a ir.Florbela,embora doente,está apaixonada,e tanto ela como o marido desconhecem que o Dr Mário Pereira Lage,na época jovem tenente-médico do destacamento em que aquele se encontra a prestar serviço,e que irá examinar a enfraquecida poetisa,será o terceiro e último marido de Florbela.
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 14:50

...Cont.
Entretanto,Florbela continua a sentir,o mesmo é dizer continua a escrever.Precisamente a 10 de Março de 1922 termina novo livro de sonetos a que dá o nome de Claustro das Quimeras.Todavia o facto de Alfredo Pimenta ter feito publicar na mesma época um livro intitulado Livro de Quimeras,faz com que Florbela decida alterar o título do seu para Livro de Soror Saúdade,o qual principia com o soneto "Soror Saudade".Contudo,esta sua obra só será publicada nos primeiros dias de Janeiro do ano seguinte,aproveitando Florbela o ensejo para oferecer um exemplar com dedicatória ao "Exmo.Sr.Dr.Mário Lage"cujo aniversário se celebrava a 14 de Janeiro.
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 15:06

...Cont.
Florbela está em Gonça perto de Guimarães quando é visitada por Mário Lage que lhe diagnostica uma colite.Florbela considera o médico como seu amigo,e como confidencia a seu pai em carta que então lhe envia,"de conversa em conversa,não sei como ficou assente eu ir para sua casa,divorciar-me e casar com ele,que sempre tinha gostado de mim sem nunca mo dizer nem mostrar."
Firme na sua decisão,Florbela escreve,a 29 de Dezembro desse ano de 23,a seu irmão,anunciando-lhe o rompimento com o seu segundo marido.Todavia,o facto de ser precisamente o segundo fracasso matrimonial,o mesmo é dizer o segundo divórcio,juntamente com as circunstâncias que rodearam o seu relacionamento com Mário Lage,fazem com que Apeles,bem como o pai e restante família cortem relações com Florbela durante 2 anos,o que muito a vai mortificar e entritecer.
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 15:18

...Cont.
Deste modo,só em Outubro de 1925,mais concretamente após o seu csamento civil com Mário Lage,é que Florbela reata o contacto com a sua família.Está-se a 16 de Outubro eFlorbela escreve:"Estou casada civilmente,devendo o meu casamento religioso realizar-se em Matosinhos na próxima semana;não quis deixar de,imediatamente,comunicar aos dois uma coisa que decerto lhes dará prazer.Destes 2 anos que passaram falaremos um dia,pois que o assunto não é para cartas,na certeza de que me darão razão,pois o meu procedimento foi sempre como podia e devia ser."
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 16:38

...Cont.
A fazer fé no seu espólio,Florbela nada produz a nível de sonetos entre 1924e1928.
Afastada das lides poéticas,Florbela não deixa contudo de trabalhar,dedicando-se agora à ttradução de romances franceses que a Livraria Civilização,do Porto,dá à estampa.Aparecerão assim 8 trabalhos seus,sendo os primeiros assinados como Felisbella Espance Lage,já que não desejava ficar conhecida como tradutora.Aliás,tudo leva a crer que Florbela se dedicasse a fazer traduções por necessidade de dinheiro para a publicação de um livro seu-Charneca em Flor ou Máscaras do Destino-,e não propriamente pelo prazer de traduzir.
Mas nem só a traduções corresponde o labor de Florbela:vários contos são produzidos nesta época,e é sua intenção publicá-los num livro intitulado O Dominó Preto.
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 16:50

...Cont.
Tendo-se deslocado a Lisboa,Florbela está junto do seu irmão de 1 a 4 de Junho.Dois dias depois,a 6 desse mesmo mês,pelas 14h30m,morre o aluno piloto-aviador Apeles Demóstenes da Rocha Espanca na queda do hidroavião Hanriot 33 que pilotava num voo de treino,tendo-se o mesmo despenhado no Tejo em frente de Porto Brandão.O seu corpo não será encontrado,apenas se conseguindo recuperar pequenos fragmentos dos destroços do hidroavião,com destaque para 2 flutuadores,que Florbela guardará devotamente até à sua morte,fazendo questão que a acompanhem no seu caixão.
Deste modo,não é de admirar que o seu livro Máscaras do Destino (concluido precisamente no final de 1927) tenha como dedicatória"A meu irmão ,ao meu querido Morto".
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 17:03

...Cont.
Junho de 1928
Florbela tem a saúde profundamente abalada.Uma vez mais a sua relação conjugal começa a ruir.Só que,desta vez,ela acabará primeiro...Mas antes-antes há ainda uma violenta paixão,violenta e inspiradora,pois a ela se devem os sonetos "chopin" e"Tarde de Música".O objecto desse amor é Luis Maria Cabral,médico e também grande pianista e concertista,para além de fecundo compositor e crítico musical.
Em 1930 conseguio poblicar alguns dos seus trabalhos na revista Portugal Feminino,mas será preciso o empenhamento do Dr.Guido Bartelli,então professor regente do curso de História da Literatura Italiana da Universidade DE letras de Coimbra,para que seja publicado,nos primeiros dias de Janeiro de 1931,o seu livro Charneca em Flor.Um único senão apenas :à data da sua tão esperada publicação já Florbela estava morta.
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Beladona



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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 17:14

...Cont.
O estado de Florbela é grvíssimo.Todavia,ainda irá viver mais um romance,desta vez com Ângelo César,um advogado do Porto ,que lhe fora apresentado num lanche no Grande Hotel do Porto,por Aurora Jardim,a qual se torna confidente de ambos.Corre o mês de Outubro de 1930 e o fim está muito próximo.
Nas vésperas de morrer ,Florbela desabafa com as amigas dizendo que se suicida no dia do seu aniversário por considerar que é a melhor prenda que pode dar a si própria,contudo ,ninguem a leva a sério.Escreve,pois, as suas últimas vontades e um postal de despedida ás amigas íntimas,as quais só receberão depois da sua morte.
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Beladona



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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 17:24

...Cont.
No dia 10 de Dezembro à noite,Florbela comunica à sua criada Teresa que não vai dormir no quarto de casal,em virtude das muitas insónias que vem tendo.Pede ainda que a não acordem no dia seguinte seja sob que pretexto for.
É encontrada tarde de mais.Na sua mesinha de cabeceira restava um pouco de leite num copo e debaixo do colchão estavam 2 frascos de Veronal,vazios.Florbela morrera enfim durante a noite,provavelmente à mesma hora da madrugada a que tinha nascido trinta e seis anos antes,no dia de Nossa Senhora da Conceição ,que nesse mesmo dia se casou a primeira vez,que foi batizada na Igreja Paroquial de N.Sra.da Conceição e que leccionou em Évora no Colégio do mesmo nome.
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Beladona



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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 17:32

Eu


Eu sou a que no mundo anda perdida
Eu sou a que na vida não tem sorte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada...a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo,triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguem vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvês a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
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Beladona



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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 1 Out - 17:51

Olá!!!
Peço imensa desculpa de ter tomado de assalto este espaço,e a biografia sair-me mais comprida do que pensei...
Um abraço da Beladona
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RosaLati
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Seg 2 Out - 14:34

beladona escreveu:
Olá!!!
Peço imensa desculpa de ter tomado de assalto este espaço,e a biografia sair-me mais comprida do que pensei...
Um abraço da Beladona

Minha cara, nada há a desculpar, Florbela, nunca é demais e obrigado por nos fazer lembrar esta poetisa e esta mulher verdadeira que Florbela foi. é preciso muita coragem, muito amor À liberdade, muito amor À sinceridade e muito amor, À "não hipocrisia", para Espanca ter vivido como viveu, embora sofrendo muito, e escrito como escreveu.

Ouvir falar de Florbela, cantar Florbela, reler Florbela, nunca, mas nunca é demais, bem haja.
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Beladona



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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Ter 3 Out - 14:23

Muito obrigada pelas suas palavras simpáticas.

Também para mim é sempre agradável rever e reler Florbela Espanca.

Um abraço da Beladona
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RosaLati
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Sex 6 Out - 12:49

Na sequência do meu ultimo post, no tema, Diversidade Cultural, não resisto a acompanha-lo, na secção respectiva com dois magnificos poemas de Zeca Afonso:

Zeca Afonso - Os Índios da Meia-Praia


Aldeia da Meia-Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faço

De Monte-Gordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha a ré

Houve até quem estendesse
A mão a mãe caridade
Para comprar um bilhete
De paragem para a cidade

Oh mar que tanto forcejas
Pescador de peixe ingrato
Trabalhaste noite e dia
Para ganhares um pataco

Quando os teus olhos tropeçam
No voo duma gaivota
Em vez de peixe vê peças
De ouro caindo na lota

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Uma cabana de colmo
E viva a comunidade
Quando a gente está unida
Tudo se faz de vontade

Tudo se faz de vontade
Mas não chega a nossa voz
Só do mar tem o proveito
Quem se aproveita de nós

Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te mudo
Chupam-te até ao tutano
Chupam-te o couro cab'ludo

Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Diz o amigo no aperto
Pouco ganho, muita léria
Hei-de fazer uma casa
Feita de pau e de pedra

Adeus disse a Monte-Gordo
(Nada o prende ao mal passado)
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado

Foram "ficando ficando"
Quando um dia um cidadão
Não sei nem como nem quando
Veio à baila a habitação

Mas quem tem calos no rabo
- E isto não é segredo -
É sempre desconfiado
Põe-se atrás do arvoredo

Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado

Veio um cheque pelo correio
E alguns pedreiros amigos
Disse o pescador consigo
Só quem trabalha é honrado

Quem aqui vier morar
Não traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana

Eram mulheres e crianças
Cada um c'o seu tijolo
"Isto aqui era uma orquestra"
Quem diz o contrário é tolo

E toda a gente interessada
Colabarou a preceito
- Vamos trabalhar a eito
Dizia a rapaziada

Não basta pregar um prego
Para ter um bairro novo
Só "unidos venceremos"
Reza um ditado do Povo

E se a má lingua não cessa
Eu daqui vivo não saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos índios da Meia-Praia
Foi sempre a tua figura
Tubarão de mil aparas
Deixar tudo à dependura
Quando na presa reparas

Das eleições acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas

Quem vê na praia o turista
Para jogar na roleta
Vestir a casaca preta
Do malfrão(*) capitalista

Mas não por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar pra trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz

E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada

Eram mulheres e crianças
Cada um c'o seu tijolo
"Isto aqui era uma orquestra"
Quem diz o contrário é tolo



(*) Palavra algarvia que significa dinheiro

..........................................................................
Sérgio Godinho : Que força é essa
Letra e música: Sérgio Godinho
In: "Sobreviventes"; 1971


Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro

Que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes

Que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 8 Out - 12:24

Cara amiga!

Mais uma vez vejo que tem bom gosto no que concerne à poesia.

Começou este post com o Zeca Afonso e voltou agora à carga.

Tive o grato prazer de ter sido aluna dele e de lhe ter dado opiniões,que ele próprio pedia aos seus alunos sobre os seus poemas e músicas,foi sempre de uma grande humildade,como acontece com os Grandes Homens.

Vou agora propôr mais um poeta que também muito prezo,que é estrangeiro,pois acho quie a poesia,como qualquer obra de arte é universal.

Reforo-me a : Pablo Neruda (1904-1973) ,poeta chileno.A sua riquíssima vida valeu-lhe tanto de admiração como de repulsa.

Não chegou a conhecer a sua mãe,porém chamou de "anjo" a sua madrasta,pra quem inventou a palavra "mamadre".

Humilde,esperou que algum editor publicasse o seu :"Residencia en la tierra",tempos depois,viu o milionésimo exemplar dos seus "Veinte poemas de amor "ser editado.

Homem de grandes amores,poeta comprometido com o seu povo,como co todos os povos do mundo,conheceu as honras diplomáticas e a glória literária:em 1971 recebeu o Prémio Nobel da Literatura.
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Beladona



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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 8 Out - 12:35

De Pablo Neruda

Eu te nomeei rainha.
Existem mais altas que tu,mais altas.
Mais puras do que tu,mais puras.
Mais belas do que tu,mais belas.

Mas tu és a rainha.

Quando vais pelas ruas
ninguém te reconheca.
Ninguém vê a coroa de cristal,ninguém vê
o tapete de ouro vermelho
que pisas por onde passas,
o tapete que não existe.

E apenas apareces
cantam todos os rios
em meu corpo,as campanas
estremecem o céu,
e um hino enche o mundo.

Somente tu e eu,
somente tu e eu,amor meu,
o escutamos.


in Los versos del Capitán
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RosaLati
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 8 Out - 12:40

Acho que temos em comum, a paixão pela poesia, e geralmente quem "sofre desta paixão", ama tudo o que é belo.

Obrigada por nos trazer aqui, Pablo Neruda, vou retribuir, com uma prosa do grande Vinicius, que muito prezo, um abraço,

Procura-se um amigo, Vinicius de Moraes

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 8 Out - 12:48

Cara amiga!

É verdade adoro poesia e amo o belo,todos os tipos de arte me captam a atenção pois são inspirações do génio humano no seu lado mais belo.

Um abraço da Beladona
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Dom 8 Out - 13:02

em continuação:

Cara amiga!

Só uma alma que muito viveu e sofreu escreve como Vinicius de Moraes.

Mas também,só uma alma idêntica o pode apreciar e compreender.

Um bem haja pela sua grande humanidade além do bom gosto que tem...
Muito obrigada

Beladona
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RosaLati
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Qua 11 Out - 14:00

Um pouco do grande Caetano...

Um Índio

Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante
de uma estrela que virá numa velocidade estonteante
e pousará no coração do hemisfério sul
na américa num claro instante
depois de exterminada a última nação indígena
e o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
mais avançado que a mais avançada
das mais avançadas das tecnologias
virá impávido que nem Muhamed Ali
virá que eu vi
apaixonadamente como Peri
virá que eu vi
tranqüilo e infalível como Bruce Lee
virá que eu vi
o axé do afoxé, Filhos de Gandhi
virá
um índio preservado em pleno corpo físico
em todo sólido , todo gás e todo líquido
em átomos, palavras, alma, cor,
em gesto, em cheiro, em sombra,
em luz, em som magnífico
num ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico
do objeto sim resplandecente descerá o índio
e as coisa que ele dirá , fará não dizer
assim de de um modo explícito
virá impávido que nem Muhamed Ali
virá que eu vi
apaixonadamente como Peri
virá que eu vi
tranqüilo e infalível como Bruce Lee
virá que eu vi
o axé do afoxé, Filhos de Gandhi
virá

e aquilo que nesse momento se revelará aos povos
surpreenderá a todos não por ser exótico
mas pelo fato de poder estar sempre
estado oculto quando terá sido o óbvio

Caetano Veloso
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Beladona



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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   Qua 11 Out - 15:36

António Gedeão no centenário do seu nascimento

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanço,como este ribeiro manso emserenos sobressaltos,
comoestes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
embebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho,é espuma,é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela ,é cor,é pincel,
base,fustew,capitel,
arco em ogiva,vitral,
pináculo de catedral,
contraponto,sinfonia,
máscara grega,magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos,infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro,canela,marfim,
florete de espadachim,
bastidor,passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára raios,locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno,geradora,
cisão do átomo,radar,
ultra som,televisão,
desembarque em foguetão
em superfície lunar.

Eles não sabem,nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida entre as mãos de uma criança.
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MensagemAssunto: Re: ESPAÇO CULTURAL   

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ESPAÇO CULTURAL
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